Dezembro 2007


Templo vestido de branco

Sempre gostei muito desta quadra por isso aqui deixo estes dois poemas para reflexão, desejando a todos um bom Natal e um ano de 2008 ainda melhor!!!

Quando um Homem quiser!

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

José Carlos Ary dos Santos

Ovelhas

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros, coitadinhos, nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão

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automoveisantigos.jpg

Um dia destes por motivos que não vêm ao caso tive necessidade de me deslocar à minha terra Natal de Autocarro (Carreira) como lhe chamam por aqui. Acontece que há mais de 20 anos que o não fazia. Não imaginam, caros amigos como foi estranho, um autocarro com ar condicionado, com cintos de segurança, sem cobrador, sem os gritos dos rapazes e raparigas que no meu tempo se cumprimentavam sempre muito efusivamente. Pensei para comigo, como isto mudou para melhor, no meu tempo não era assim…
Porem ao chegar ao Terminal Rodoviário de Reguengos de Monsaraz, que desilusão, na realidade as coisa por ali tinham mudado para pior!!!
Em vez da pequena sala de espera, que acolhia todas as crianças que logo pela madrugada chegavam como bandos de pardais com o seu chilrear madrugador e o Sr. Mário que no Inverno estava sempre pronto para abrir a porta para acolher os que chegavam por volta das sete da manhã, com um ar carrancudo dizia: -“Se fazem muito barulho vão para o fresco.”
Foi mesmo aqui que tudo mudou para pior, o actual terminal rodoviário é um barracão e repito, barracão no verdadeiro sentido da palavra, com um enorme pé direito, sem o mínimo de condições, as cadeiras já foram, hoje estão transformadas em bancos estão ligadas umas ás outras por ripas porque os pés já estão todos partidos, as lâmpadas florescentes no tecto só metade funciona, o balcão de atendimento é melhor nem comentar.
Mas se pensam que a minha desilusão ficou por aqui, acreditem que não, Há 34 anos eu e todos os meninos da freguesia de Corval fazíamos o percurso Reguengos, Carrapatelo, Stº António do Baldio e Corval, acreditem se quiserem a estrada que ligava o Carrapatelo à Estrada de S. Tiago Maior era estreita mas estava alcatroada em condições, agora meus senhores, continua estreita nas do alcatrão apenas conseguimos ver alguns restos que os buracos deixam transparecer.
Acreditem que não sou saudosista mas gostaria de ver os utentes desta estrada e destes transportes, tratados ao menos com a mesma dignidade de à 34 anos atrás.
Fiquei triste muito triste mesmo, por saber que o Município da minha jovem cidade não consegue reparar nestes pormenores!!!